Luanda, Angola – Imagem web
Mais de 20 anos após o fim da guerra civil, país ainda lida com consequências do conflito, como áreas contaminadas por minas terrestres, enquanto fortalece memória histórica, identidade nacional e compromisso com as futuras gerações.
O dia 4 de abril de 2002 entrou para a história como o marco oficial do fim da guerra civil em Angola. Após 27 anos de conflito, o país iniciou um processo complexo de reconstrução, que ultrapassou a recuperação física das cidades e avançou sobre dimensões sociais, culturais e humanas profundamente afetadas pela violência.
Iniciado em 1975, logo após a independência de Portugal, o conflito angolano se intensificou por disputas internas e influências da Guerra Fria, deixando um rastro de destruição que atingiu diretamente a população civil. Ao longo de quase três décadas, milhares de pessoas morreram, milhões foram deslocadas e amplas áreas do território ficaram comprometidas.
Entre os principais desafios herdados da guerra, um perigo silencioso atravessou gerações; a presença de minas terrestres, espalhadas sobretudo em regiões rurais. Mesmo após o cessar-fogo, esses artefatos continuaram representando uma ameaça real e constante, dificultando o uso da terra, o deslocamento e causando acidentes graves, muitas vezes fatais.
O impacto foi profundo: famílias inteiras tiveram suas rotinas alteradas, comunidades ficaram isoladas e o desenvolvimento agrícola foi comprometido em diversas regiões do país. É a partir dessa realidade que se constrói o olhar de Evandro Anderson Afonso Percheiro, angolano residente no Brasil há 18 anos. Atuando com treinamentos de liderança voltados à área de vendas e desenvolvimento pessoal, ele traz uma perspectiva marcada pela vivência entre dois países, contribuindo com reflexões sobre os impactos da guerra e os caminhos da reconstrução em Angola.
“O país precisou priorizar a preservação da vida. Durante anos, o foco foi retirar essas minas para garantir segurança à população”, afirma o angolano Evandro Afonso Percheiro, residente no Brasil há 18 anos.
Segundo ele, Angola direcionou recursos significativos para a desminagem, alcançando resultados expressivos. “Hoje, entre 80% e 85% das áreas afetadas já foram limpas, permitindo que muitas comunidades retomassem suas atividades com mais segurança.”
O Dia da Paz, marca a memória como ferramenta de futuro
Mais do que marcar o fim da guerra, o Dia da Paz tornou-se um momento de reflexão nacional. A data reforça a importância de manter viva a memória histórica, não como forma de reviver o sofrimento, mas como instrumento de aprendizado coletivo.
“Um povo que não conhece a sua história corre o risco de repeti-la. As feridas existem, mas hoje conseguimos falar sobre elas com mais maturidade”, destaca Evandro.
As novas gerações, que não vivenciaram diretamente o conflito, assumem papel relevante nesse processo. Com maior acesso à informação, demonstram interesse em compreender o passado e participar da construção de um país mais estável e consciente de sua trajetória.
Entre fé e reconstrução: a identidade de um povo
Apesar das marcas deixadas pela guerra, a sociedade angolana revela uma característica que se destaca: a capacidade de ressignificação. Em vez de permanecer ancorado na dor, o país construiu uma narrativa baseada na continuidade da vida.
“Muitas pessoas que viveram a guerra não ficam presas ao sofrimento. Elas seguem em frente. Não querem ser vistas com pena, querem reconstruir suas histórias”, relata.
A fé e o otimismo aparecem como elementos centrais dessa reconstrução simbólica. Para Evandro, esses fatores ajudam a explicar a forma como o povo angolano encara os desafios.
“Aprendemos a manter a esperança, mesmo em momentos difíceis. Hoje, isso faz parte da nossa forma de ver o mundo.”
A diáspora e o compromisso com o país de origem
Fora de Angola, comunidades angolanas mantêm viva a conexão com o país por meio de encontros, manifestações culturais e celebrações que reforçam a identidade coletiva. O Dia da Paz também é celebrado no exterior como um símbolo de pertencimento e responsabilidade.
“Estar fora é um privilégio, mas também uma missão. Estamos aqui para aprender e, no futuro, contribuir com o desenvolvimento do nosso país”, afirma.
Desafios atuais e construção de identidade
Mesmo após avanços significativos, Angola ainda enfrenta desafios estruturais importantes, como o crescimento econômico sustentável, a redução das desigualdades e a consolidação de uma identidade nacional alinhada à sua história.
Para Evandro, o país precisa evitar comparações simplistas com outras nações. “Angola tem uma trajetória própria. O desafio é construir um caminho que respeite essa realidade.”
Uma experiência que aponta caminhos
A trajetória angolana não se apresenta como modelo universal, mas como evidência de que a reconstrução é possível quando há mobilização coletiva em torno de valores fundamentais.
“Ninguém consegue compreender totalmente a dor do outro, mas existe algo que pode transformar qualquer realidade: o amor. Quando ele está presente, abre caminhos para um futuro diferente”, conclui.

Evandro Percheiro – Foto Luiza Frazão
Mais de duas décadas depois
Passados mais de 20 anos do fim da guerra, Angola segue avançando. Entre cicatrizes e conquistas, o país constrói um presente baseado na memória, na valorização da vida e na busca por estabilidade.
A paz, nesse contexto, deixa de ser apenas um marco histórico e passa a ser um processo contínuo, sustentado por escolhas coletivas e pelo compromisso de não repetir o passado, contando com um povo que se destaca por seu amor, contido em seu DNA, sua alegria e vontade de viver, sem desmerecer suas memórias.
Um encontro em Brasília e o valor da palavra
Durante a celebração do Dia da Paz e da Reconciliação Nacional de Angola, realizada na sede da Thesaurus Editora, que abriu suas portas para o encontro em Brasília, o fundador da casa editorial, Victor José Melo Alegria Lobo, compartilhou uma reflexão marcada pela defesa da verdade, do conhecimento e do compromisso com as futuras gerações. O evento contou ainda com a presença breve do embaixador de Angola, reforçando o caráter simbólico e institucional da ocasião.
Aos 90 anos, o editor destacou o papel essencial do livro como instrumento de formação crítica, ressaltando que é por meio da leitura que se desenvolve a capacidade de pensar com autonomia em um cenário cada vez mais impactado pela desinformação. Em sua fala, direcionada especialmente aos angolanos presentes, enfatizou valores como honestidade, patriotismo e amor à pátria.
À frente da editora, fundada em Brasília e com mais de três décadas de atuação, Victor Alegria construiu uma trajetória voltada à valorização do conhecimento, da cultura e da produção intelectual independente. Em seu depoimento, também chamou atenção para os desafios enfrentados pelo livro no Brasil, como a carga tributária e as dificuldades de acesso, ao mesmo tempo em que reforçou o papel da juventude na construção de um futuro mais justo. Para ele, é por meio da educação, da preservação da verdade e do fortalecimento das bases sociais que se torna possível transformar realidades e consolidar caminhos de reconstrução.


