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Mestras e mestres se reúnem na Teia Nacional para dialogar sobre reconhecimento das culturas tradicionais e populares

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Mestras e mestres das culturas tradicionais e populares de todo o Brasil se reuniram na manhã de sábado (23) no Sesc Praia Formosa, em Aracruz (ES), numa grande roda de conversa sobre políticas públicas e instrumentos de reconhecimento. Cerca de 90 pessoas participaram do encontro Conexões Vivas, entre elas representantes do Pontão da Rede de Culturas Populares e Tradicionais e do Grupo de Trabalho (GT) de Culturas Populares da Comissão Nacional dos Pontos de Cultura (CNPdC).

Nesta roda realizada dentro da programação da 6ª Teia Nacional dos Pontos de Cultura, foram abordadas iniciativas como a Política Nacional para as Culturas Tradicionais e Populares, instituída por decreto assinado na quinta-feira (21) pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e a criação do Programa Rede Nacional de Mestras e Mestres das Culturas Tradicionais e Populares, por meio da Portaria nª 283/2016, firmada pela ministra Margareth Menezes também na mesma data.

O programa tem como objetivo mapear, reconhecer, valorizar, preservar, proteger e difundir os saberes, conhecimentos, práticas e tecnologias tradicionais e populares, promovendo as identidades e a diversidade cultural de mestras e mestres em todas as regiões e territórios do Brasil. 

Consideram-se mestras e mestres pessoas de sabedoria notória, reconhecidas por suas próprias comunidades como representantes e herdeiros dos conhecimentos, práticas e tecnologias das culturas tradicionais e populares, e que, por meio da oralidade, da corporeidade e da vivência, dialogam, aprendem, ensinam e transmitem seus saberes, garantindo a memória e identidade de seu povo.

Trabalho conjunto

Em sua participação no encontro, a secretária de Cidadania e Diversidade Cultural do Ministério da Cultura, Márcia Rollemberg, destacou a intersetorialidade da Política Nacional para as Culturas Tradicionais e Populares, que incorporou outros campos e incluiu 18 ministérios em seu processo de criação. E falou da importância de estimular a criação de legislação.

“A cultura que vocês fazem em seus territórios é relevante para o Brasil. Deve ser reconhecida, fomentada, estimulada. Esta é a maior parceria público-comunitária do país. São 16 mil pontos de cultura e muitos deles envolvem mestres e mestras. Mas sabemos que não é só uma política que dará conta da complexidade. É preciso alavancar leis municipais, ter leis estaduais e ter a lei nacional”, afirmou a secretária.

Cláudia Leitão, secretária de Economia Criativa do MinC, lembrou o período em que foi secretária de Cultura do Estado do Ceará e conseguiu regulamentar a Política dos Mestres da Cultura (Lei 13.351/2003). Contou que, em março de 2003, início do primeiro mandato do presidente Lula, ela decidiu chamar o então ministro Gilberto Gil para ir ao Ceará e comentou que criaria uma lei dos tesouros vivos do estado.

“Ele me disse: ‘Isso é fundamental. Faça logo’. Em agosto de 2023, a lei sai e a gente faz a primeira grande diplomação dos mestres no Cariri. No palco, cada mestre que subia, era uma representação do Brasil. As lágrimas de Gil caíam reto e todo mundo chorava junto”, recordou.

Lindivaldo Júnior, o Júnior Afro, diretor do Sistema Nacional de Cultura, falou do processo de estruturação do sistema, da responsabilidade dos três entes federativos (União, estados e municípios) e da importância da participação social, inclusive de modo formal. 

“O novo modelo de Conselho Nacional de Política Cultural diz que ele precisa ser paritário, ter diversidade, ser deliberativo e também construtivo. Nós vamos ter uma cadeira de culturas tradicionais e populares e precisamos organizar o colegiado, para que possa refletir o pensamento da cultura brasileira a partir da presença forte de mestres e mestras dentro do Conselho Nacional de Política Cultural”, comentou o diretor. 

Rede latino-americana

Catalina Zambrano, socióloga e produtora cultural no Centro de Estudos e Aplicação da Capoeira (Ceaca), mencionou o trabalho deste ponto de cultura que há mais de 25 anos atua numa escola municipal de São Paulo, inserindo a capoeira no currículo escolar do primeiro ao quinto ano. Ela, que é colombiana e há mais de 20 anos vive no Brasil, chamou a atenção para a importância de se ter uma rede de culturas tradicionais da América Latina. 

“É importante conhecer outros saberes de mestres que compartilham a mesma história de escravidão. Colômbia tem mais de 25% de população negra e isso precisa ser conhecido no Brasil. Temos que trazer os mestres e mestras das culturas tradicionais para dentro dos grupos de pesquisa, mas não como objetos de pesquisa, e sim como sujeitos, produtores de conhecimentos”, observou.

Sobre esse intercâmbio, a secretária Márcia Rollemberg lembrou que o programa de cooperação IberCultura Viva teve sua primeira reunião na Teia anterior, há 12 anos (em Natal, em maio de 2014) e hoje envolve 14 países ibero-americanos. “Estamos com o compromisso de criar um grupo de trabalho para fazer essa rede ser mais forte na América Latina”, afirmou. 

Memórias vivas

De Pernambuco, Mestre Manoelzinho Salustiano, o mais velho dos 15 filhos de Mestre Salustiano, lembrou o terreiro onde cresceu, por onde passavam cavalo-marinho, caboclinho, coco, ciranda, mamulengo e o maracatu de baque solto, folguedo com o qual se identificou. Ele falou do respeito e da disciplina que é preciso ter no folguedo, lamentou que poucos conheçam a sambada do terreiro, e reforçou que não se pode nunca esquecer os mestres, “os que passaram e os que estão presentes”. “Mestre não morre. A gente descansa, mas não  morre. Mas é preciso valorizar, aprender, escutar mais, porque eles não podem ir levando o conhecimento que têm”, alertou.

Mestre Manoelzinho contou, ainda, que no maracatu de baque solto existem três mestres. Um deles é o mestre caboclo, que toma conta de quem faz as danças. É ele quem manobra (quem faz a coreografia). Outro é o mestre de apito, aquele que tira os versos. E existe um que poucas pessoas enxergam: o mestre do pertencimento. “É ele quem sabe falar com os olhos com o seu povo. E este mestre às vezes é desrespeitado, porque não está fantasiado nem tocando tambor. Mas, se não fosse ele, aquele maracatu não existia. Porque é ele quem sabe onde está o segredo”, explicou.

Na sequência, o artista paraibano Joelson Topete deixou na roda algumas inquietações a respeito do futuro da memória ancestral, de como resguardar essas memórias vivas, como levar mestres e mestras para dentro da escola, para além de um prêmio ou um cachê. “São experiências que a gente só tem quando eles dialogam com a gente, com essa escrita oral, transversal, que toca, que mexe, que fluidifica a gente”, ressaltou.

Segundo ele, a escola é o lugar de transformação, mas ainda parece haver uma barreira, talvez pela informalidade da fala. “Fiz um curso de licenciatura plena de teatro e foi difícil para mim, porque eram 30 pessoas, e só eu era negro e vinha da ancestralidade do cavalo-marinho, com a fala coloquial que meu pai e minha mãe me ensinaram”, comentou. 

Aproveitando que a sala estava cheia de gente que pisa nos dois mundos, o popular e da formulação acadêmica (e da política), Mestre Adiel Luna, da região da Mata Norte pernambucana, ressaltou que “mestre” é uma palavra de muitos sentidos e que em muitas manifestações culturais seu papel está estabelecido, não importando a idade. 

“O mestre, às vezes, é quem detém o saber e transmite; em outras, é o que organiza a comunidade. Mas, diferentemente de outros mecanismos de construção de conhecimento, está claro que o mestre é o que ensina para o mais novo, o discípulo que lá na frente vira mestre para outro mais novo, e isso faz com que seja possível que a chama do primeiro esteja comigo agora e que eu possa levar isso à frente”, disse o cantador de viola, coquista, forrozeiro, aboiador, cordelista, ator, mestre de maracatu, mamulengueiro, formador e brincante de cultura popular.

Notório Saber

Ricardo Nascimento (SCDC/MinC), que na capoeira é conhecido como Mestre Cangaceiro, é professor da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab), uma das integrantes do Consórcio do Notório Saber de Mestras e Mestres das Culturas Tradicionais e Populares. Uma iniciativa que ele considera uma “mudança de chave” na forma de pensar a educação e a sociedade brasileira.

“A gente costuma se ver como produtor cultural, como educador, como agitador comunitário, mas nunca como alguém que possui práticas intelectuais, que tem método, conceito, que tem formas de ver e de entender a sociedade. Nós precisamos mudar essa chave, de verdade. Precisamos pensar que são as nossas rezadeiras, as nossas parteiras lá na comunidade, que fazem o trabalho que o Estado por vezes não faz”, afirmou.

Formado por universidades e institutos federais, o Consórcio do Notório Saber é um marco institucional para integrar saberes tradicionais e populares às atividades acadêmicas de ensino, pesquisa e extensão, garantindo que mestras e mestres das culturas tradicionais e populares possam atuar em processos formativos e de produção de conhecimento, contribuindo para a preservação, transmissão e difusão desses saberes. 

Esta iniciativa vincula-se ao Ministério da Cultura por meio da Diretoria de Promoção das Culturas Tradicionais e Populares da Secretaria de Cidadania e Diversidade Cultural (SCDC). Além da Unilab, participam do consórcio o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE), a Universidade Estadual do Ceará (UECE), a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a Universidade Federal da Bahia (UFBA) e a Universidade de Brasília (UnB).

Teia Nacional

A 6ª Teia Nacional dos Pontos de Cultura reúne agentes culturais, coletivos, mestres e mestras das culturas populares, povos tradicionais, representantes da sociedade civil e gestores públicos de todas as regiões do Brasil.

O evento é uma realização do Ministério da Cultura, do Governo do Estado do Espírito Santo, da Prefeitura de Aracruz e da Comissão Nacional dos Pontos de Cultura (CNPdC), em parceria com o Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes), o Sesc, Unesco e o programa IberCultura Viva.



Fonte: Ministério da Cultura

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