O samba que se consolidou no Rio de Janeiro no início do século 20 carrega histórias construídas nos morros, subúrbios, terreiros, quintais e demais espaços de convivência das comunidades populares. Desse universo cultural emergiram o partido alto, o samba de terreiro e o samba-enredo, três formas de expressão que compõem as Matrizes do Samba no Rio de Janeiro, registradas como Patrimônio Cultural do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
Mais do que gêneros musicais, essas manifestações estão relacionadas a formas de sociabilidade, criação coletiva e transmissão de conhecimentos. Reúnem elementos como oralidade, improvisação, canto, dança, ritmo e convivência comunitária, além de guardarem vínculos com a história e as experiências das populações afrodescendentes que participaram da formação do samba carioca.
As três matrizes apresentam características próprias, mas compartilham a presença da coletividade. Mesmo quando há autoria individual das composições, a realização do samba envolve a roda, os músicos, as vozes, os corpos e a interação entre diferentes gerações.
Três formas de fazer samba
No partido alto, o improviso ocupa lugar central. Enquanto parte dos participantes sustenta um refrão ou coro, os chamados partideiros se alternam na criação de versos. A prática exige domínio rítmico e poético, capacidade de escuta e resposta e conhecimento adquirido, muitas vezes, pela observação e pela participação nas próprias rodas de samba.
O samba de terreiro, por sua vez, está relacionado a espaços comunitários como quintais, quadras de escolas de samba, terreiros, rodas e botequins. Suas composições abordam temas do cotidiano e das relações sociais, passando por festas, afetos, experiências de vida, conflitos e desigualdades. É uma manifestação associada à convivência e à participação coletiva de quem canta, toca e dança.
Já o samba-enredo se desenvolveu entre as décadas de 1920 e 1930, especialmente a partir das experiências das escolas de samba e das rodas do bairro do Estácio de Sá. A forma passou a acompanhar os desfiles de Carnaval e a desenvolver, por meio de música e letra, narrativas relacionadas aos enredos escolhidos pelas agremiações. Ao longo do tempo, passou por transformações e processos de profissionalização, mantendo vínculos com as escolas de samba e seus territórios.
As letras dos sambas-enredo podem abordar diferentes assuntos e episódios, incluindo acontecimentos históricos, personagens, manifestações da cultura popular, religiosidades, ancestralidades e experiências da população negra. Nas escolas de samba, a composição se articula ainda a diferentes linguagens presentes no desfile, como dança, canto, percussão, artes visuais e performance.
Patrimônio Cultural do Brasil
As Matrizes do Samba no Rio de Janeiro foram inscritas no Livro de Registro das Formas de Expressão em 20 de novembro de 2007. O pedido de registro foi apresentado pelo Centro Cultural Cartola, e o reconhecimento abrange o partido alto, o samba de terreiro e o samba-enredo no estado do Rio de Janeiro.
O registro de um patrimônio cultural de natureza imaterial considera práticas, conhecimentos e formas de expressão que são transmitidos entre gerações e reconhecidos como referências culturais pelos grupos e comunidades que os mantêm.
Em 25 de março de 2025, o Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural aprovou a revalidação do título de Patrimônio Cultural do Brasil das Matrizes do Samba no Rio de Janeiro. O processo de reavaliação reuniu informações atualizadas sobre o bem cultural e recomendações relacionadas às ações de salvaguarda.
Mais de um século depois do período em que essas formas de expressão começaram a se consolidar, partido alto, samba de terreiro e samba-enredo seguem presentes em rodas, encontros de sambistas, festas comunitárias, escolas de samba e outros espaços de convivência. Nesses ambientes, conhecimentos musicais, histórias e modos de fazer continuam sendo compartilhados entre diferentes gerações.
Fonte: Ministério da Cultura

