A Secretaria do Audiovisual (SAV) do Ministério da Cultura (MinC) encerrou sua participação na 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes com a defesa da continuidade como eixo central da política de internacionalização do audiovisual brasileiro. A proposta é garantir que políticas públicas, programas e ações sejam estruturadas, permanentes e articuladas ao longo do tempo.
A participação ocorreu em debates e rodas de conversa com o tema Internacionalização do audiovisual brasileiro: estratégias, desafios e potencialidades, realizados em 27 de janeiro, no Cine-Teatro, em Tiradentes (MG). O espaço foi dedicado à discussão de políticas públicas, circulação internacional de obras, coproduções e à presença do Brasil em mercados e festivais, com foco na construção de caminhos sustentáveis para a inserção internacional do setor.
Representando a SAV, André Araújo Virgens, coordenador de Políticas para Difusão e Internacionalização, apresentou um balanço de gestão do período 2023–2025, destacando resultados, avanços institucionais e desafios. Sua fala foi estruturada a partir da ideia de que os resultados já alcançados precisam estar conectados a uma agenda futura contínua, com estabilidade e aprofundamento das políticas públicas.
Diretrizes e estratégia institucional
André apresentou as quatro diretrizes que orientam a política de internacionalização do audiovisual brasileiro: o fortalecimento das relações multilaterais e bilaterais em alinhamento com a política externa brasileira; a promoção internacional das obras; o estímulo à profissionalização e aos intercâmbios; e a consolidação institucional do fomento à internacionalização.
Também foram destacadas as atribuições da SAV, como a promoção de produções brasileiras em festivais e mostras internacionais e a sistematização de iniciativas de divulgação do audiovisual brasileiro no exterior, com a criação de uma base sólida de informações e estratégias.
Nesse contexto, foi ressaltada a importância de um ecossistema de governança articulado, que envolve diferentes órgãos e instituições, entre eles a própria SAV, a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), a Agência Nacional do Cinema (Ancine), a Empresa Brasileira de Turismo (Embratur), o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), o Ministério do Turismo (MTur), o Ministério da Educação (MEC), o Ministério do Meio Ambiente
Multilateralismo e presença internacional
A apresentação destacou ainda o papel do multilateralismo como estratégia central da atuação brasileira. O país participa de espaços como o G20 Brasil 2024, a Reunião Especializada de Autoridades Cinematográficas e Audiovisuais do Mercosul (Recam), a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) e o bloco dos países emergentes Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul (BRICS), que em 2024–2025 passou a contar com a entrada de Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Irã e Indonésia.
No âmbito da CPLP, foram citados os países que integram essa articulação — Brasil, Portugal, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Guiné Equatorial, Angola, Moçambique e Timor-Leste — reforçando a cooperação cultural e audiovisual entre países de língua portuguesa.
Já entre as ações concretas já realizadas, destacam-se a Chamada de Fortalecimento de Projetos de Coprodução Mercosul, o VII Concurso de Boas Práticas da Sociedade Civil do Mercosul em Acessibilidade Audiovisual e a 2ª Mostra Mercosul Audiovisual, que exibiu filmes de cinco países em 367 pontos de exibição e cineclubes.
Outro marco relevante foi a participação do Brasil como País de Honra no Marché du Film, mercado internacional de cinema ligado ao Festival de Cannes. Entre 2024 e 2025, o país registrou um aumento de 123% na presença brasileira, passando de 189 para 422 participantes.
No Festival de Cannes, o número de credenciados brasileiros também cresceu, passando de 85 para 136 profissionais. Em 2025, estiveram presentes 112 empresas e mais de 130 profissionais brasileiros.
No Marché du Film, o número de participantes brasileiros passou de 189 para 422, enquanto no Festival de Cannes o total foi de 85 para 136 credenciados. Em 2025, estiveram presentes 112 empresas e mais de 130 profissionais brasileiros.
Fomento, formação e estruturação
Os editais de apoio à presença brasileira no exterior foram apresentados como instrumentos centrais da política de internacionalização. O edital de circulação audiovisual no exterior, em três edições, investiu R$ 1,84 milhão e apoiou 159 profissionais em 23 países, entre eles Alemanha, Argentina, Canadá, Espanha, Estados Unidos, França, Itália, México, Nigéria, Portugal e Reino Unido.
O edital de formação audiovisual no exterior, em duas edições, investiu R$ 2 milhões e apoiou 50 profissionais em 11 países, incluindo Argentina, Chile, Cuba, Dinamarca, Espanha, França, Holanda, Marrocos, Moçambique, Portugal e Reino Unido.
Também foram citadas iniciativas estruturantes, como a publicação do Catálogo de Internacionalização do Cinema Brasileiro, a criação da Film Commission Nacional e o avanço de uma agenda estratégica voltada à internacionalização do setor de games, à preservação audiovisual, ao fortalecimento do agenciamento de vendas e à ampliação de acordos de coprodução.
Essa agenda inclui ainda a ampliação de espaços de difusão comercial e não comercial, o fortalecimento de instrumentos de promoção e a expansão de cooperações acadêmicas e profissionais.
Diálogo entre governo e mercado
A mesa mediada por Débora Ivanov, coordenadora-geral do 4º Fórum de Tiradentes, contou com Daniel Tonacci, coordenador de Programas Internacionais da Ancine. Ele apresentou uma abordagem focada nas coproduções internacionais e nos resultados dos editais bilaterais da Ancine.
Mariele Christ, coordenadora da ApexBrasil, destacou sua atuação por meio de programas setoriais voltados à política de fomento e internacionalização.
Rodrigo Teixeira, da RT Features, trouxe uma visão de mercado, usando o filme Ainda Estou Aqui como exemplo de circulação internacional.
Júnia Matsura, produtora e distribuidora da We Are Here, falou sobre a importância de ampliar o diálogo do audiovisual brasileiro com o mercado asiático.
Continuidade como eixo estratégico
O tom geral da mesa foi marcado por um consenso: o maior desafio é garantir continuidade. Os participantes convergiram na avaliação de que são necessárias ações mais estruturadas e conjuntas, capazes de assegurar estabilidade institucional e previsibilidade para o setor.
André sintetizou essa perspectiva ao afirmar: “Do ponto de vista do governo, foi enfatizado o esforço real de construção de uma ação integrada, que já vem gerando iniciativas concretas. Do ponto de vista dos agentes de mercado, essa articulação precisa ser ampliada e aprofundada, especialmente na perspectiva de continuidade, estabilidade e consolidação dessas políticas e estratégias ao longo do tempo”.
Fonte: Ministério da Cultura

