O Ministério da Cultura (MinC) realizou, nesta sexta-feira (28), a 4ª edição dos Diálogos SNIIC, ciclo mensal de debates dedicado à apresentação de estudos e dados relevantes para a gestão pública da cultura. Intitulado Hábitos Culturais em Números, o encontro, em Brasília, reuniu especialistas, gestores e pesquisadores para discutir tendências recentes do hábito cultural no país.
A edição trouxe dois importantes levantamentos. Guilherme Miranda, analista de Dados e Pesquisas do Observatório Fundação Itaú, apresentou a pesquisa Hábitos Culturais, desenvolvida desde 2020 em parceria com o Datafolha. O estudo possui abrangência nacional, entrevistando pessoas de 16 a 65 anos, e tem como foco gerar indicadores para políticas públicas fundamentadas em evidências. “O objetivo da pesquisa é investigar, principalmente, o acesso da população brasileira à arte e à cultura. E, a partir desse mote, a gente desdobra pra vários outros temas importantes”, explicou.
A pesquisa, criada inicialmente para medir os impactos da pandemia no acesso à cultura e realizada em 2025, se consolidou e hoje traz recortes por classe, região, raça, escolaridade e religião. Os dados mais recentes apontam crescimento do acesso entre 2023 e 2024, mas indicam sinais de estagnação no período seguinte. Eventos ao ar livre seguem como a atividade presencial mais praticada, enquanto ouvir música e assistir a filmes e plataformas lideram o acesso cultural online. A desigualdade, porém, permanece expressiva. “A desigualdade econômica permanece muito forte, em alguns casos chega a ser o triplo, quatro vezes mais acesso da classe A e B em relação à D e E”, destacou Guilherme.
Ele também reforçou a importância da formação na infância. “Quanto mais cedo se tem contato com atividades culturais, maior é o hábito de acesso na vida adulta”.
Na sequência, João Leiva, diretor da JLeiva Cultura & Esporte, apresentou resultados de Cultura nas Capitais, considerada a maior pesquisa quantitativa sobre hábitos culturais já realizada no Brasil. Com dados de 2024, o estudo detalha diferenças regionais e práticas específicas de cada cidade. “A escolaridade é o motor principal, mais determinante do que a renda”, afirmou Leiva, enfatizando também que “o grupo mais excluído hoje em termos de acesso cultural são as pessoas mais velhas.” Ele reforçou a relevância da articulação entre poder público e setor privado: “No Brasil, a maior parte das pesquisas ainda são feitas pela iniciativa privada; esse trabalho aqui é importantíssimo”.
Os debates colocaram em evidência questões estruturais. Entre os principais temas estiveram as barreiras de acesso — como custos, deslocamento, insegurança e assédio — e a persistência das desigualdades de classe, gênero e escolaridade. As diferenças regionais também apareceram: enquanto o Sudeste lidera vários indicadores, festividades populares mostram maior equilíbrio entre regiões, com destaque para o Norte. Em municípios menores, práticas como shows e circo são mais frequentes do que cinema e museus.
A discussão trouxe ainda reflexões sobre a relação entre acesso e infraestrutura cultural. Vários participantes defenderam que políticas públicas ampliem o entendimento de “equipamento cultural”, incluindo espaços multiuso, ruas, praças e escolas. “Grande parte das atividades culturais acontecem fora dos equipamentos tradicionais: espaços públicos, bairros, eventos ao ar livre”, pontuou Cecília Sá, subsecretária de Espaços e Equipamentos Culturais do MinC. Para ela, “quando olhamos para esses espaços como infraestrutura cultural, muda o olhar da política, do incentivo e dos recursos que colocamos”.
A coordenadora-geral de Fomento da Fundação Nacional de Artes (Funarte), Luisa Hardman, salientou o papel das políticas públicas diante das desigualdades observadas. “O reconhecimento dessas disparidades segue sendo um ponto central; a ampliação do acesso não significou uma mudança estrutural”, disse. Segundo Luisa, é fundamental fortalecer processos de mediação. “A mediação cultural envolve recursos de outras naturezas para que a gente garanta um acesso pleno”.
A mediação do encontro ficou a cargo de Letícia Schwarz, subsecretária de Gestão Estratégica, que provocou reflexões sobre como gestores devem interpretar os dados e ampliá-los. “As políticas públicas são desenvolvidas muito mais em função da pressão dos produtores, mas na agenda das pessoas, cultura não é prioridade”, declarou. Ela também destacou a necessidade de novas perguntas para orientar políticas públicas. “Como gestores, a gente tem que pensar nas análises que provocam novas perguntas. O que que a gente faz com o que já tem, como incide e que novas perguntas fazer para academia e institutos?”.
Entre os encaminhamentos sugeridos ao longo da tarde, apareceram propostas como: ampliar recortes sobre diferentes formas de leitura nas pesquisas futuras; incentivar prefeituras e secretarias municipais a realizarem diagnósticos locais; fortalecer a integração entre educação e cultura; aprofundar estudos sobre infância, juventude, idosos e mulheres; e promover debates sobre formatos de equipamentos culturais e usos do espaço público.
A 4ª edição reforçou o propósito dos Diálogos SNIIC: consolidar uma cultura de dados na gestão pública da cultura, estimular o uso de evidências e abrir espaço para análises plurais sobre o setor. As próximas edições ocorrerão mensalmente, com temas e pesquisas que dialogam com as prioridades da Política Nacional de Cultura e com a diversidade do território brasileiro.
Sobre o Diálogos SNIIC
A série de encontros marca um novo impulso ao Sistema Nacional de Informações e Indicadores Culturais (SNIIC), conduzido pela Subsecretaria de Gestão Estratégica (SGE) do MinC. Em cada edição, pesquisadores apresentam recortes e resultados de estudos produzidos por diferentes instituições e equipes dedicadas ao campo cultural.
Com foco na gestão pública, o Diálogos SNIIC é direcionado às equipes do Ministério da Cultura, oferecendo subsídios técnicos para decisões orientadas por evidências. A iniciativa promove a troca de conhecimentos e o debate sobre os dados do setor, fortalecendo práticas de avaliação e consolidando uma cultura de gestão baseada em informações qualificadas.
As próximas edições ocorrerão mensalmente, com temas e pesquisas que dialogam com as prioridades da Política Nacional de Cultura e com a diversidade do território brasileiro. Realizado no âmbito do SNIIC, o ciclo busca contribuir para que as políticas culturais se tornem cada vez mais eficazes, inclusivas e alinhadas às necessidades da população.
Fonte: Ministério da Cultura

